Avançar para o conteúdo principal

Deambulações do dia-a-dia (sociais e políticas) – III

1 - Aristóteles dizia que se não soubéssemos todos os elementos de um assunto não poderíamos ter uma opinião. Hoje, basta um elemento difuso que se “viu na Net” ou se ouviu em conversas de café. Conheço pessoas sem o mínimo conhecimento de economia que têm opiniões firmes sobre a origem da crise. Conheço pessoas sem o mínimo de conhecimento em saúde que têm opiniões firmes no combate à COVID-19
“Isto era muito simples. Fazia-se assim...” 

2 – À data que escrevo (7 de junho 2020) os Açores não tem novos casos de COVID-19 há 20 dias e a ilha do Faial há 70 dias. Um número redondo digno de assinalar. Estão de parabéns todos os Açorianos, a Autoridade de Saúde Regional, o Governo Regional e todos os profissionais de saúde envolvidos. 

3– Para comemorar também uma data importante, o dia em que os Açores ficaram sem nenhum caso ativo, o partido que está no poder na Região elaborou um cartaz que levantou alguma celeuma em certos sectores, leia-se, aficionados dos partidos da oposição. A indignação demonstrada e as acusações de falta de decoro foram tantas que só faltou rasgar as vestes. 
No cartaz em questão é claro que a autoria é do PS-Açores, pela presença do seu símbolo no canto inferior direito. Um cartaz que diz “O POVO AÇORIANO CONSEGUIU!” e por baixo a negrito “ 1ª REGIÃO A ATINGIR ZERO CASOS DE COVID-19” e em grande plano uma bandeira dos Açores hasteada. 
Parece-me claro quem é que está de parabéns. Mas não sou inocente para não perceber que, subjacente, o partido em questão está a tentar capitalizar o sucedido. Mas se são quem governa, são quem tem maior responsabilidade, para o bem e para o mal, e neste caso (zero casos ativos) foi para o bem. Ou não fosse o governo dessa cor política. 
Da mesma forma que já vimos o maior partido da oposição focar na taxa de letalidade (quase toda referente a um pequeno concelho, mais concretamente a um único edifício) e estou certo que vão continuar a fazê-lo. 
Qualquer partido que governe, tendo bons números em determinado assunto, não pode fazer um cartaz com essa informação? Qualquer partido da oposição com dados negativos sobre a governação, não faz um cartaz ou dá o devido destaque a essa informação? 
Deixemos de ser virgens ofendidas, porque parece-me óbvio que a preocupação subjacente é outra. 

4 – A propósito de preocupações subjacentes, um estudo de opinião elaborado pela Eurosondagem para o Açoriano Oriental e o Diário Insular, revelou que 70,9% dos inquiridos considera que o Governo Regional esteve muito bem, tomando as medidas certas para combater a COVID-19 e defender os Açores. No mesmo âmbito, 15,2% dos inquiridos atribui uma nota razoável à ação do governo de Vasco Cordeiro, sendo que apenas 9,1% referiu que o Governo Regional esteve mal nas medidas adotadas ao longo dos últimos meses para travar a COVID-19 e proteger o povo açoriano. Nesta questão houve 4,8% que optou por não responder. 

5 – No passado dia 1 de Junho comemorou-se o 40º aniversário da instituição do Dia da Região Autónoma dos Açores. A escolha da Segunda-Feira do Espirito Santo, a segunda-feira imediatamente após a festa religiosa do Pentecostes, alicerça-se no facto da comemoração do Espírito Santo constituir a principal festividade do povo Açoriano. Neste dia, tenho o hábito de partilhar nas redes sociais um pequeno texto que escrevi há 10 anos atrás: 

Ser-se Açoriano não se explica!

E não se o é, só por cá viver ou até nascer!

Sente-se, vive-se, vê-se, reconhece-se e demonstra-se toda a vida!

Viva ao Dia da Região Autónoma dos Açores!

Viva às Festas do Espírito Santo!

(artigo publicado na edição de 12/06/2020 do Tribuna das Ilhas )

Comentários

Top dos artigos mais lidos

O Faial duplamente a ganhar

Há 4 meses atrás escrevi neste mesmo jornal que: “… tendo em conta o perfil, estilo e forma de estar de cada um, parece-me pacífico concluir que grande parte dos Faialenses deve ver com bons olhos a continuação do trabalho que têm desenvolvido. José Leonardo na Câmara, como um homem mais de ação, com propostas concretas e planificadas, mais sociável, genuíno, terra-a-terra e com provas dadas em cargos autárquicos, e Carlos Ferreira como deputado regional, com um discurso e argumentação mais estruturado e eloquente, com uma postura mais rígida e intransigente, honrando assim o cargo para qual foi recentemente eleito, na defesa dos interesses dos Faialenses perante o Governo Regional. Até prova em contrário, penso que assim os Faialenses ficam melhor servidos e duplamente a ganhar.”  Desde então, segui com atenção as propostas apresentadas e assisti às entrevistas dos candidatos para o Município da Horta. Julgo que foram esclarecedoras para perceber quem está melhor preparado e com projet…

O “spinning” da informação

As eleições autárquicas aproximam-se a passos largos. São eleições em que as pessoas se sentem mais próximas dos intervenientes. Cidadãos que todos conhecemos e com quem convivemos, encontram-se nas diferentes listas dos diferentes órgãos, em que é mais importante a competência para o cargo, bem como o trabalho realizado na sua localidade a nível profissional e sobretudo cívico, do que a cor ou ideologia do partido. 
Infelizmente, não se tem discutido o que cada um propõe fazer, são raras as propostas novas apresentadas e muito menos se perde tempo a explicar em concreto o que se pretende fazer de diferente e como. Além disso, ninguém parece preocupado em avaliar se o que foi proposto há 4 anos já foi realizado ou iniciado. 
Não se fala do início de obras por todos pretendidas e por outros anteriormente prometidas, mas que só neste mandato tiveram o seu início, como o Mercado Municipal, o Saneamento Básico ou o projeto da Frente Mar. Mas apenas se o lamentável bloqueio a um apoiante de …

Um dia negro para os Açores

O infeliz episódio de não existência de um candidato dos Açores na lista do PSD às eleições europeias foi uma desconsideração a todos os Açorianos, por mais diferentes que sejam as suas opiniões ideológicas. Um episódio negro que irá ficar perpetuado na vida política Açoriana e que desejamos que não seja repetido por nenhum partido com a dimensão e importância do PSD a nível nacional e em particular na autonomia regional. 
Mais do que uma vergonha para o PSD-Açores de Alexandre Gaudêncio e para Mota Amaral é uma ofensa à Região Autónoma dos Açores, perpetuado pelo PSD de Rui Rio.

Pela primeira vez em 30 anos os Açores não vão ter um candidato pelo PSD ao Parlamento Europeu, restando apenas um único deputado em lugar elegível, do partido que suporta o Governo. 
Fica assim claro a visão centralista e anti-Açores do atual PSD.
Fica assim claro o peso político do PSD-Açores de Alexandre Gaudêncio, que cada vez mais tende para zero e que é visto como persona non grata pela direção nacional…

O infortúnio do Mestre Simão

Sábado, 6 de janeiro 2018. Um dia que ficará na história do Triângulo. Acordei cedo, como acordam todos os pais com crianças pequenas. Depois de tratar das mesmas, já com o pequeno-almoço tomado, numa pesquisa rápida pelo Facebook, deparei-me com o acidente do navio Mestre Simão à entrada do cais da Madalena. Ainda incrédulo, pude assistir aos diversos diretos, proporcionados por pessoas que rapidamente se deslocaram ao local. Fruto das novas tecnologias, pudemos assistir praticamente em direto ao drama que acontecia, com direito até à descrição aflitiva do que os nossos olhos presenciavam. O barco a balançar, preso nas pedras, para um lado e para o outro ao sabor das vagas que o fustigavam, alguns gritos das pessoas que assistiam no cais, aquando do efeito de uma vaga maior, provavelmente com familiares a bordo. A descida dos passageiros para a balsa, que agora vendo até foi rápida, mas que pareceu interminável quando estavam ao sabor das ondas e do perigoso balançar do barco sobre …

Vox populi - Habemus Presidentum!

As recentes eleições materializaram-se a nível nacional numa vitória histórica para o PS, atingindo o maior resultado de sempre de um partido nas eleições autárquicas. A este facto não serão alheios os excelentes resultados da governação da Geringonça de António Costa. Vitória essa que não se propagou aos seus aliados, obtendo o PCP um resultado desastroso (virando-o novamente para as greves e manifestações) e o BE mantido a sua nulidade a nível autárquico.  
Se a derrota do PSD já era esperada, o tamanho da humilhação em Lisboa e Porto, associada à estrondosa vitória do PS, determinou a saída de Passos Coelho. Se a noticia em si é vista com bons olhos pela maioria dos Portugueses (incluindo do PSD), não deve ter deixado satisfeito António Costa, que assim será forçado a trabalhos redobrados para atingir a maioria absoluta.
A nível regional manteve-se o mapa rosa, com o único destaque para a perda do Nordeste pelos Socialistas, mantendo assim, 12 das 19 câmaras, contra 5 do PSD, 1 …

Pordata - O Retrato do Faial

A Pordata, projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, presta um serviço gratuito de acesso a informação estatística certificada sobre a sociedade portuguesa e disponibilizou este mês a edição 2018 do “Retrato dos Açores”. Apesar de credível, nota-se que existe um certo desconhecimento das especificidades dos Açores na apresentação de alguns dados. 
Os dados são divididos pelas 9 ilhas e 19 municípios dos Açores, descriminados em diferentes áreas. Não me vou debruçar sobre os dados dos Açores, que já foram publicitados na comunicação social, mas salientar os dados disponíveis da Ilha do Faial. 
O Faial é a 3ª ilha com mais população (14792 em 2016), a 5ª com maior superfície e a 3ª com maior altitude. Como a maioria das ilhas, continuamos a ter uma perda de população, mas ao comparar os dados de 2001 e 2016, depreende-se que tal se deve à redução acentuada dos jovens até aos 15 anos, já que a população ativa (15 aos 64 anos) aumentou. 
O concelho da Horta é o 2º dos Açores com m…

“Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar”

À data que escrevo, passaram-se 70 dias deste o primeiro caso confirmado com COVID-19 em Portugal e 57 dias do primeiro caso nos Açores. Ainda vai ser preciso muito mais tempo para melhor compreender o vírus e ter as ferramentas apropriadas para o combater, como também para ultrapassar todos os seus efeitos nas nossas vidas e na economia.
Foi evidente que nenhum país estava devidamente preparado para esta pandemia. E prova disso foi a dificuldade inicial em lidar com o problema e os obstáculos com que todos se depararam na aquisição de máscaras e de ventiladores.
Em Portugal podemos afirmar que este primeiro embate correu bem melhor do que o esperado, tendo em conta o que era projetado e os relatos que vinham dos nossos vizinhos europeus. O facto de termos antecipado medidas restritivas, quando comparando com outros países, e as mesmas terem sido acatadas pela população, bem como, termos tido a capacidade de realizar testes em massa, são fatores que aparentemente contribuíram para ta…

Aeroporto da Horta II (Turismo)

Na continuação do anterior artigo, foco-me agora em alguns dados estatísticos importantes do nosso aeroporto, que nos permitem analisar o presente para perspetivar o futuro. Os dados apresentados têm como fonte as tabelas disponíveis no site do Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA). 
Analisando os dados de 2017 e comparando com os de 2016, já de si excecionais, verificamos que o Aeroporto da Horta bateu o recorde de nº total de passageiros, atingindo o valor de 238.507 passageiros, o que representa um aumento de 7,7% em relação ao ano passado. Para se ter uma noção do que estamos a falar, o Aeroporto do Pico em 2017 atingiu pouco mais da metade, com 121.811 passageiros (obviamente com menos voos), uma redução de 1,2% em relação ao valor máximo atingido em 2016. 
Se a análise for feita apenas pelos passageiros desembarcados, verificamos que o Aeroporto da Horta teve um aumento de 6,18% para os 110.799 passageiros (+6451) e o Aeroporto do Pico uma subida de 0,96% para 59.93…

PIB e Turismo sustentado nos números

Quem nos últimos tempos tem lido o que se tem falado sobre o Faial, fica certamente com a ideia que estamos progressivamente a entrar numa espiral recessiva.
Existem aspetos positivos e negativos, é assim com tudo na vida, mas estava quase a ficar convencido que estávamos a perder o comboio do crescimento e dos dados positivos que se têm manifestado com pujança no País e também nos Açores, tal era a quantidade de maus presságios em artigos de opinião nos jornais locais e nas redes sociais.
Como é meu hábito, principalmente quando vejo alguma coisa que me manifesta alguma surpresa ou dúvida, tento primeiro pesquisar e confirmar com alguma fonte fidedigna, antes de replicar ou tecer algum tipo de comentário.
Nem a propósito, estas últimas semanas têm sido férteis na apresentação de dados estatísticos. Cinjo-me aos mais recentes e importantes; o Produto Interno Bruto (PIB), e os dados do sector com maior destaque e crescimento nos Açores, o turismo.
O PIB é um indicador que revela…

Faialenses ganham mais 369€ por ano do que a média nacional

Vem este artigo a propósito do recente trabalho desenvolvido pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), sobre os rendimentos medianos dos portugueses.
Os resultados apresentados baseiam-se nos indicadores de rendimento declarado no IRS de 2017, mais concretamente em dados fiscais anonimizados da Autoridade Tributária e Aduaneira.
Como é normal nestes casos, o feedback que advém destes estudos na comunicação social, centra-se nas médias nacionais e em comparações a nível de regiões ou no valor mais alto e mais baixo detetado por município. Dito de outra forma, ficamos com o resultado dos Açores como um todo e podemos comparar com outras regiões ou com a média nacional. 
Para aqueles que, como eu, são mais curiosos, têm que ir procurar nos documentos originais e nos “lençóis” de Excel disponibilizados pelo INE, para ter dados relativos à nossa ilha/município.
Isto porque, como todos bem sabemos, os dados dos Açores, muitas das vezes refletem a realidade da ilha onde residem cerca de …