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Beijo de Poder Vs. Beijo de Morte

Quero começar por desejar votos de felicidade ao próximo Presidente do Governo dos Açores, José Bolieiro, na difícil tarefa que tem pela frente. E deixar claro, para os mais distraídos, que sou assumidamente de esquerda. Ideologicamente é com o maior partido deste campo político que mais me identifico. Não sou militante de nenhum partido nem nunca participei em qualquer lista, cargo político ou de nomeação. Aprecio, debato e comento política em diversos blogues e redes sociais há 2 décadas e neste semanário nos últimos 4 anos.

Não creio que a solução encontrada seja a melhor e julgo que para a maioria dos eleitores também não a é, tanto os que votaram PS, como PSD ou na maioria dos outros partidos. 

Reconheço toda a legitimidade democrática na formação do novo governo, mesmo não tendo sido apresentada essa possibilidade ao eleitorado, e pelo contrário, a mesma foi por diversos intervenientes posta de parte, ao contrário do que se viu em 2015. 

Discordo com a forma de ter sido investido por um representante não eleito, com acordos desconhecidos, ao invés de o ser por deputados eleitos, com apresentação de programa na sede do Parlamento. 

Identifico falhas de quem até agora governou e reconheço que contribuiu para a viragem à direita. 

Acredito na sensatez de José Bolieiro, não confio em muitos que o rodeiam e envergonho-me com a presença da extrema-direita na Caranguejola que viabilizou o seu Governo. Estou certo que, como eu, preferia ver o seu PSD no poder sem esta infeliz dependência. E em breve o conseguiria. 

Sei que em política por vezes temos de abdicar do que acreditamos para atingir aquilo que achamos ser um bem maior. Não abdico, contudo, de certos princípios e linhas vermelhas. Com exceção dos carreiristas políticos, tenho dificuldade em compreender que um partido com matriz social-democrata legitime um partido de extrema-direita desprezível que acolhe e se relaciona com fascistas. Um partido homofóbico e xenófobo. Um partido que no seu programa pretende acabar com a escola pública, a saúde pública e o estado social. Que quer acabar com sindicatos, organizações feministas e com a participação de Portugal na ONU. Um partido que sugere retrocessos civilizacionais como a prisão perpétua, pena de morte, castração química, confinamento étnico e fomenta o discurso de ódio. Um partido que não tem uma única linha sobre os Açores no seu programa e que é contra o princípio da Autonomia. Um partido que apregoa “que vai demolir a III República” e que só sabe expelir medidas populistas, demagógicas e simplistas para problemas complexos. 

E não me venham com comparações com o extremo oposto para normalizar o casamento à extrema-direita, porque apesar das incongruências desses partidos, as comparações nos princípios e valores constitucionais são absurdas. Ao contrário do recém-chegado CHEGA, quando tiveram oportunidade de influenciar quem governa nunca exigiram medidas de alteração constitucional e em momento algum contestaram o Estado de Direito democrático. 
Mas para explicar o óbvio, cito o escritor Joel Neto, militante do PSD-Açores, responsável pelo programa eleitoral de 2016. 
“Querer comparar a extrema-esquerda portuguesa, com 40 anos de compromisso constitucional e prática democrática, a um partido que acaba de chegar e já namora a pena de morte, propõe a castração química, insinua o confinamento étnico e vocifera um sem-número de outras alarvidades medievais – querer compará-los não é defender um projeto de sociedade, nem é sequer discutir: é só andar a brincar com coisas sérias.” 

Sempre nutri respeito pelo PSD e pelo contributo dado à democracia, mais ainda pelo PSD-Açores que nunca enveredou por aventuras ultraliberais e por ser um partido fundador da Autonomia. Sempre o vi como uma alternativa óbvia, segura e sensata na governação dos Açores. Mas há limites e princípios humanistas que nunca deviam ser ultrapassados, para não legitimar aspirações deste calibre e contribuir para o seu crescimento, inclusive à custa do seu eleitorado. Neste campo só podemos ser contra ou a favor, não existe o meio-termo quando convém, e a história assim nos ensina. 

Como escreveu Luís Osório " pelo menos ganhou-se em clarificação". Em próximas eleições, nos Açores ou no Continente, “os eleitores do PSD já sabem ao que vão”. 

Resta saber se este beijo do CHEGA ao PSD foi apenas de poder, ou se por acréscimo será também um “beijo de morte” política.

8 Novembro 2020

(publicado no jornal Tribuna das Ilhas na edição de 13/11/2020)

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