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Deambulações do dia-a-dia (sociais e políticas) - II

1 - Ao fazer uma pesquisa sobre os dados da emigração em Portugal, dei conta de um dado curioso. Em 1966, no tempo de António Salazar, a emigração atingiu o valor de 120.239 pessoas. Em 2014, já perto do final do mandato de Passos Coelho, 134.624 pessoas saíram do país para o estrangeiro, o valor mais alto registado. O dado mais recente reporta a 2018, também já perto do final do 1º mandato de António Costa, com 81.754 pessoas emigradas. 

2 - Politicamente falando, ainda não se viu nada de concreto do Livre a não ser um excessivo agitar de águas e o foco nas questões associadas à sua deputada. Se no início agrega um nicho de eleitorado, ao continuar assim, acabará por potenciar o crescimento dos radicalismos no extremo oposto. 

Ideologias de parte, admiro a coragem e o à vontade da deputada do Livre com a sua gaguez, algo que não é comum ver, sobretudo na política e na TV. 

É perfeitamente normal que em determinadas situações a gaguez seja muito acentuada, provavelmente associada a maior ansiedade, e noutras seja menos evidente. 

Espero que o seu exemplo sirva para desmistificar e reduzir algum estigma que existe sobre esta situação. E que de futuro aprendamos a não ficar constrangidos ou até desconfortáveis perante a mesma. Está visto que a ela não faz impressão nenhuma, o problema é nosso. 

Não deve ser fácil, sobretudo na sua nova atividade como deputada, mas como a Joacine, com humor, já referiu, gagueja a falar mas não a pensar. A questão é que num Parlamento a capacidade de oratória é fundamental para passar a mensagem, como tal, espero que consiga ultrapassar este obstáculo. 

Ao contrário do que já vi pelas redes sociais, a gaguez da deputada nunca me deu vontade para rir, admito no entanto que deixa-me desconfortável, mas a incapacidade para aceitar a diferença é algo que me incomoda muito mais. 

3 - A Moção para a Busca e Salvamento de Vidas Humanas no Mediterrâneo foi chumbada no Parlamento Europeu por apenas 2 (dois!) votos. 288 a favor e 290 contra. 

Dois deputados portugueses votaram contra, conscientemente. 

São eles Nuno Melo do CDS e Álvaro Amaro do PSD (suspeito no processo Rota Final, tendo pago 40 mil € de caução para tomar posse como eurodeputado).
Maria da Graça Carvalho do PSD também votou contra, mas a própria depois explicou no Facebook que se tinha enganado (!) e corrigido, acontece que essa correção não conta para o resultado. 

José Manuel Fernandes, do PSD, absteve-se. 

O que revolta é que bastaria que a deputada que se enganou (!) e o que se absteve, tivessem votado a favor, como fizeram os outros 3 deputados da bancada do PSD, e a proposta tinha sido aprovada. 

Já do único deputado eleito do CDS, Nuno Melo, creio que ninguém esperava outra coisa… 

E de pouco serve a justificação que foram votadas 4 propostas sobre o tema, todas elas chumbadas por diferentes partidos, porque esta era a única proposta que já tinha sido aprovada em comissão, a única que verdadeiramente minimizava este drama. E a prova disso foi que vários deputados do centro-direita votaram a favor da mesma, colocando princípios basilares à frente do sentido de voto do grupo parlamentar. 

A desumanidade de dizer "não te ajudo" a quem se está a afogar, não representa a solidariedade e o acolhimento do povo português, não representa a nossa própria história de povo emigrante que sabe o valor de entreajuda.
Todos os deputados que referi o nome têm em comum o facto de pertencer à família política dos "Democratas Cristãos" (PPE), mas pelos vistos o mandamento de amor ao próximo é uma indicação facultativa, em função da nacionalidade ou etnia. 

Nos últimos seis anos, o número de mortos nesta rota ultrapassa os 15.000. A Organização Internacional das Migrações fala em "carnificina" e estima que, este ano, o número já atingiu as 1.041 mortes. 

O que mais choca é que a extrema-direita festejou este chumbo no parlamento europeu como um golo numa final...

(artigo publicado na edição de 08/11/2019 do Tribuna das Ilhas)

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