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ASTRAZENECA e a irresponsabilidade dos decisores políticos europeus

Aquando da suspensão da vacina AstraZeneca em diversos países europeus, escrevi um texto nas redes sociais que aqui reproduzo.

Foram reportados 30 a 50 casos duvidosos de eventos tromboembólicos em 17 milhões de inoculações com a vacina AstraZeneca e faz-se uma "pausa" na vacina em plena Pandemia!
Foi confrangedor ver alguns países de manhã a referir claramente que não existe evidência que a causa seja da vacina ou que os benefícios são imensamente superiores aos riscos, e à tarde, de forma leviana, suspenderem a vacina.
Uma decisão puramente política (e provavelmente económica) e com zero de evidência científica.
Os raros e graves sintomas adversos registados são comuns na população em geral e inclusive maior do que na população vacinada. É esperado que 1 em 1000 pessoas por ano sofra um evento tromboembólico.
Obviamente que é necessário apurar o sucedido e continuar a avaliar, como em qualquer medicamento, mas o problema está neste aparato, nos motivos e nas suas consequências. Na pior das hipóteses, faziam a "pausa" no lote associado (ABV5300, que nem existe em Portuga) ou esperavam mais alguns dias pela confirmação do regulador europeu antes de tomar uma decisão.
Escrevi então que a montanha vai parir um rato, mas o mal já está feito. E dias depois veio a confirmar-se.
Agora o outro lado da balança: em Portugal, verificamos que a mortalidade média por 100 mil habitantes entre janeiro e fevereiro deste ano foi cerca de 230, praticamente o dobro dos últimos 50 anos. As contas são relativamente fáceis de fazer: a pandemia descontrolada atira a mortalidade média para o dobro. Desse dobro, metade são causas diretas, metade são indiretas. Por isso, não só os portugueses, mas todos os países têm o dever de levar a pandemia a sério e tomar as melhores medidas possíveis. Não só para proteger o bem mais precioso que é a vida, como todas as implicações gravíssimas associadas à crise social e económica que esta pandemia está a ter por todo o mundo.
Os dados mais recentes da vacinação são claros: reduz drasticamente a infeção grave com necessidade de internamento, cuidados intensivos e a morte. No caso da AstraZeneca, o recente estudo realizado nos EUA confirma a segurança nos idosos e uma taxa de eficácia de 79% na proteção contra a COVID-19 sintomática e de 100% na doença grave ou crítica com necessidade de hospitalização.
Repito 30 a 50 casos tromboembólicos em cerca de 17 milhões de inoculações com a AstraZeneca.
A Agência Europeia do Medicamento (EMA), que nunca sugeriu a paragem, foi clara ao referir que a vacina é segura e eficaz e os benefícios da vacinação ultrapassam possíveis riscos. A OMS afina pelo mesmo diapasão.
É bom que fique claro que não existe RISCO ZERO em nenhuma vacina ou medicamento, seja ele qual for.
Não se sabe se existe algum nexo de causalidade nos eventos reportados, mas os dados conhecidos apontam para que não. Em todo o caso, mesmo que no futuro se confirme, estamos a falar de cerca de 0,000002% de probabilidade.
A taxa de letalidade por COVID-19 na população em geral é superior aos 2% e acima dos 80 anos ultrapassa os 15%, tendo no pico da 3ª vaga ultrapassado os 30%! E o caos que tem sido para os doentes NÃO-COVID? E as repercussões sociais e económicas da pandemia?
Que se segue agora? Fazer uma "pausa" na pílula anticoncepcional porque com esta história a maioria da opinião pública percebeu que existe o risco confirmado de trombose venosa? É que mesmo muito baixo, é consideravelmente superior aos números reportadas da AstraZeneca.
A machadada que deram na vacinação contra à Covid-19 pode ter repercussões gravíssimas em todo este processo. Algum receio que existia atingiu agora os píncaros e dificilmente será ultrapassado a curto prazo.
Os movimentos anti-vacinas, os negacionistas e a pseudociência agradecem todo o desnorte verificado por alguns decisores políticos europeus.

(artigo publicado no semanário Tribuna das Ilhas de 26 Março 2021)

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