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A mostrar mensagens com a etiqueta André Ventura

Quando a rejeição decide eleições

A noite da segunda volta das presidenciais teve pouco de surpresa e muito de confirmação. Como escrevi após a primeira volta, num confronto entre António José Seguro e André Ventura, desde que a abstenção não atingisse níveis históricos, o resultado seria previsível. Os votos podem migrar com alguma facilidade. As taxas de rejeição, essas, raramente falham. Depois de uma primeira volta mais disputada de sempre, a segunda entregou um dos desfechos mais previsíveis de sempre. Um desfecho de simplicidade quase pedagógica, onde Seguro venceu categoricamente. Venceu no país, venceu nos Açores e venceu na ilha do Faial com uma expressão clara. No concelho da Horta alcançou 75,45%, triunfando em todas as freguesias e superando de forma confortável os 66,82% nacionais e os 66,44 % regionais. Para quem aprecia estatísticas com algum simbolismo político, fica ainda a nota: a Horta está entre os dez concelhos do país que menos votaram em Ventura. Convém, porém, evitar leituras preguiçosas. Esta n...

Normalização (anti)democrática

O que se passa hoje em Portugal não é um fenómeno isolado. É parte de uma tendência visível em várias democracias ocidentais, onde a extrema direita cresce alimentada pelo medo, pela desinformação, pelo culto da personalidade e pela normalização do discurso de ódio. O caso de André Ventura deve ser lido neste contexto, sem ingenuidade ou tentativas de relativizar. Quando 85,7% da desinformação verificada na última campanha tem origem num único candidato, percebemos que já não estamos perante excessos pontuais. Estamos perante uma estratégia política deliberada em que a desinformação se torna instrumento central de mobilização. Se associarmos isso a políticas de imigração com falhas, a degradação dos serviços públicos ou o distanciamento progressivo entre elites políticas e cidadãos temos o terreno fértil para este discurso ganhar tração. A extrema direita prospera quando transforma problemas complexos em respostas e culpados simples: sejam eles imigrantes, minorias, jornalistas o...

A fábula da Corrida ao Tacho na República

Neste pais à beira-mar plantado, onde o bacalhau é rei e os programas de comentário político são superiores as reportagens sobre os problemas que afetam a população, perspetivava-se mais uma eleição. O povo, calejado por sucessivas desilusões, preparava-se para voltar a escolher entre o caos conhecido e a esperança temperada com vinagre. Os principais candidatos reuniram-se num estúdio de TV com um cenário tão neutro quanto possível. Pedro Nuno Santos, o antigo maquinista rebelde da esquerda, entrou com um brilho nos olhos de quem já caiu do cavalo e ainda assim voltou para pegar nas rédeas. Trazia ideias, entusiasmo e o cabelo ligeiramente despenteado, típico de quem passou a noite a desenhar soluções para os problemas do país que todos prometem resolver... mas só depois das legislativas. Olhou para a câmara e disse: “Eu não venho aqui prometer o céu, mas quero acabar com o inferno atual de muitas pessoas.” Luís Montenegro, o candidato que parecia refém de um guião, seguro com...

Um Sussurro de Luz num Mundo que Grita Trevas

Num tempo em que o mundo acelera perigosamente para os braços de um conservadorismo duro, isolacionista e nacionalista de extrema direita, a perda do Papa Francisco é mais do que a partida de um líder espiritual — é o silêncio que se abate sobre uma das vozes mais lúcidas, humanas e progressistas da nossa era. Jorge Mario Bergoglio foi, no seio de uma Igreja tantas vezes distante da realidade dos que mais sofrem, uma revolução serena. Um Papa com falhas, como todos os outros, mas que teve a coragem rara de falar das feridas do mundo com bondade e verdade. Ergueu-se contra a cultura da indiferença, defendeu os pobres como prioridade evangélica, acolheu os migrantes como irmãos, ouviu os gritos das minorias e desafiou os poderosos — dentro e fora da Igreja — com a firmeza dos humildes. Denunciou a indiferença global, falou do ambiente e das alterações climáticas, questionou os excessos do capitalismo, pediu perdão pelos crimes da Igreja, desafiou a própria Cúria e estendeu a mão aos úl...

O Pai, o Padrinho e o Fiel da Balança

Nos Açores e no Continente, estamos perante duas eleições incertas e das quais se prevê instabilidade. Não sabemos quem irá ganhar, se será possível formar governo, sendo reduzidas as probabilidades de uma situação estável e duradora. Mas já existe um grande vencedor: a unipessoal de André Ventura, que dá pelo nome de CHEGA. Com todas as sondagens a dar um crescimento superior a todos os restantes, com percentagens que ultrapassam os 15% e uma extrapolação para números de deputados que poderá rondar os 30 a 40, terá assim um claro papel de fiel da balança para o resultado das eleições. Mas voltemos atrás na história, ao ano de 2017 em que um conhecido comentador desportivo da CMTV, foi escolhido pelo PSD para se candidatar à Câmara de Loures. Cedo começou a disparar os seus soundbites xenófobos e racistas, que culminaram em destaque na imprensa, na retirada de apoio do CDS e críticas de destacados membros do PSD. Nada que abalasse Passos Coelho, que prontamente confirmou e defendeu Ven...

O Rei vai nu

O resultado das Legislativas foi aquilo que se previa. Já todas as análises foram feitas e em relação às mesmas, apenas saliento que, numa democracia representativa parlamentar, o relevante é o número de deputados eleitos e a maioria que daí advém. Assim, constatamos que face às últimas eleições, o PS ganhou +20 deputados e o PAN +3. O PSD perdeu 12, o CDS perdeu 13, a CDU perdeu 5 e o BE manteve o mesmo número. Faltam nestas contas os 3 novos deputados do IL, Livre e Chega, que não estavam representados anteriormente, bem como os 4 deputados a eleger pelos emigrantes. Destaque também para a abstenção, sobre a qual já escrevi no artigo anterior, e o facto de o PS ter mais deputados (106) que toda a direita (PSD, CDS, IL e Chega com 84).  Se o partido que formaria governo já era há muito conhecido, o mais importante será perceber que tipo de apoio parlamentar dai advém. Sendo essa ainda uma incógnita, vou cingir-me, por agora, a 2 outros aspetos que achei relevantes:  ...