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Mensagens

O calvário do subsídio de mobilidade

  Confesso que parti para este novo modelo com algum otimismo. Estou perfeitamente à vontade com ferramentas digitais, utilizo serviços online diariamente e raramente preciso de recorrer a balcões físicos. Mas bastaram poucos dias para perceber que, na prática, o que foi apresentado como simplificação não passa de um processo mais complexo, mais lento e francamente desajustado da realidade. Acedi à plataforma no dia 18 de fevereiro, mal regressei de viagem.   O sistema começou por rejeitar a elegibilidade, situação que resolvi rapidamente com IBAN e comprovativo familiar no portal das Finanças. Depois veio o verdadeiro teste. Formulários extensos, pouco claros, sem orientação útil, onde em vários momentos tive de “adivinhar” o que era pedido. Submeti, aguardei dias por resposta e recebi um pedido de alteração vago. Corrigi. Voltei a submeter. Esperei novamente por vários dias. Nova rejeição, desta vez detalhada e por um motivo que me obrigou a contactar a companhia aérea par...
Mensagens recentes

Quando a rejeição decide eleições

A noite da segunda volta das presidenciais teve pouco de surpresa e muito de confirmação. Como escrevi após a primeira volta, num confronto entre António José Seguro e André Ventura, desde que a abstenção não atingisse níveis históricos, o resultado seria previsível. Os votos podem migrar com alguma facilidade. As taxas de rejeição, essas, raramente falham. Depois de uma primeira volta mais disputada de sempre, a segunda entregou um dos desfechos mais previsíveis de sempre. Um desfecho de simplicidade quase pedagógica, onde Seguro venceu categoricamente. Venceu no país, venceu nos Açores e venceu na ilha do Faial com uma expressão clara. No concelho da Horta alcançou 75,45%, triunfando em todas as freguesias e superando de forma confortável os 66,82% nacionais e os 66,44 % regionais. Para quem aprecia estatísticas com algum simbolismo político, fica ainda a nota: a Horta está entre os dez concelhos do país que menos votaram em Ventura. Convém, porém, evitar leituras preguiçosas. Esta n...

Normalização (anti)democrática

O que se passa hoje em Portugal não é um fenómeno isolado. É parte de uma tendência visível em várias democracias ocidentais, onde a extrema direita cresce alimentada pelo medo, pela desinformação, pelo culto da personalidade e pela normalização do discurso de ódio. O caso de André Ventura deve ser lido neste contexto, sem ingenuidade ou tentativas de relativizar. Quando 85,7% da desinformação verificada na última campanha tem origem num único candidato, percebemos que já não estamos perante excessos pontuais. Estamos perante uma estratégia política deliberada em que a desinformação se torna instrumento central de mobilização. Se associarmos isso a políticas de imigração com falhas, a degradação dos serviços públicos ou o distanciamento progressivo entre elites políticas e cidadãos temos o terreno fértil para este discurso ganhar tração. A extrema direita prospera quando transforma problemas complexos em respostas e culpados simples: sejam eles imigrantes, minorias, jornalistas o...

A Tempestade Anunciada que o Governo Insiste em Ignorar

  A sucessão de sinais de alarme na economia açoriana tornou-se demasiado evidente para continuar a ser ignorada. Já antes tinha aqui assinalado o aumento abrupto da dívida regional, que praticamente duplicou desde que a atual coligação assumiu funções. No entanto, esse cenário, que deveria preocupar qualquer responsável político ou cidadão informado, parece ser tratado com uma indiferença desconcertante. A política financeira seguida tem sido um desfile de medidas de curto prazo, feitas à pressa e com o objetivo de garantir simpatias eleitorais, sacrificando a sustentabilidade económica e hipotecando o futuro das próximas gerações. A dependência crescente da Região face ao exterior é hoje inegável. Nunca os Açores dependeram tanto dos fundos da República, nem se viu o Governo Regional tão de mão estendida, numa postura que mina a autonomia conquistada e reduz a nossa capacidade negocial a praticamente zero. Não é a oposição que o diz, são os próprios documentos oficiais: em 2026...

Quando o país adoece

  1 - Não é apenas por tragédias individuais que uma ministra da Saúde deve sair. É por ter conduzido o SNS a um estado ainda mais difícil do que aquele que encontrou. Desde que Ana Paula Martins assumiu o cargo, o que já estava mal tornou-se pior e, em muitos casos, insustentável. As promessas de reorganização transformaram-se em cortes cegos, a prioridade passou a ser a folha de cálculo e não os doentes. O resultado está à vista: serviços que encerram, urgências em rutura, profissionais exaustos e uma população que começa a perder a confiança no sistema público. Quando se decide cortar na despesa sem qualquer estratégia de eficiência, o que se está a fazer é escolher quem vai sofrer. E, como sempre, são os cidadãos, nomeadamente os que não têm seguro de saúde, os primeiros a pagar. Não há sinais de investimento real na capacidade do SNS, apenas uma transferência de responsabilidades para o sector privado, que cresce à custa do desmantelamento do público. A política de austerid...

A dívida recorde que não indigna ninguém

Imaginem, por um instante, que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro tivesse aumentado a dívida pública nacional em mais de 40%. Conseguem imaginar o que se seguiria? Aberturas de telejornais em tom dramático, debates televisivos infindáveis, colunas de opinião inflamadas e uma oposição em pé de guerra. Seria um escândalo nacional. Mas, curiosamente, quando o mesmo acontece nos Açores, tudo passa despercebido. Segundo dados oficiais, a dívida pública regional cresceu 42% nos últimos cinco anos de governação da Coligação PSD/CDS/PPM. Atingimos um máximo histórico de 3400 milhões de euros de dívida em 2024 para uma região com apenas 236 mil habitantes. Os dados mais recentes do Banco de Portugal (2º trimestre 2025) indicam que a dívida já ultrapassava os 3700 milhões de euros. Estamos a falar de um valor que é quase o dobro do que tínhamos em 2019! E, no entanto, onde estão as manchetes, os debates e a indignação pública? A comunicação social regional, salvo honrosas exceções, parece res...

Faial: o futuro que não pode esperar

  Em pouco mais que uma semana, os faialenses voltam às urnas. Mais do que escolher listas ou partidos, estarão a decidir que lugar querem para a sua ilha nos próximos anos. A realidade é clara: o Faial está a perder espaço no contexto regional. Perde peso político, perde confiança, e cada vez que isso acontece, perdem também os faialenses — em oportunidades, em desenvolvimento e em futuro. Enquanto outras ilhas crescem e se afirmam de forma consistente, o Faial avança timidamente, e em alguns domínios até recua. A Coligação, liderada pelo PSD-Faial, trouxe pontos positivos e um renovado fôlego, mas tem mostrado mais talento para a pirotecnia comunicacional e mudanças cosméticas do que para resolver problemas estruturais. Tirando as raras exceções que surgem para responder a problemas atuais, limita-se a concluir o legado planeado pelos seus antecessores, beneficiando de um trunfo histórico e irrepetível: a "bazuca financeira" do PRR, que veio apenas acelerar a concretizaçã...

Faial: quando os números mostram a perda de influência

Os números não mentem. Pela primeira vez, o Faial foi ultrapassado pelo Pico no total de dormidas turísticas acumuladas de janeiro a julho. O sinal tinha surgido em junho, mas em julho tornou-se irrefutável: 45.008 dormidas no Pico contra apenas 37.823 no Faial. Uma diferença de mais de sete mil dormidas num único mês. Mais do que estatística, é o sintoma de uma ilha que está a perder o seu lugar de liderança no Triângulo. Durante décadas, o Faial foi o centro nevrálgico da economia e da política da região. Hoje, assistimos a uma inversão histórica: enquanto o Pico se afirma com uma estratégia consistente e ganha protagonismo, o Faial cresce de forma tímida, refém da falta de visão e de influência. Não se trata de rivalidade entre ilhas-irmãs, mas de uma transformação estrutural que nos está a empurrar para trás. A perda de peso político do Faial é evidente, e a atual governação regional, com a passividade do PSD/Faial, tem sido cúmplice deste declínio. A redução de voos diretos pa...

Antes e Depois

  Antes das eleições, o Faial era uma ilha em estado de urgência permanente. Falava-se, finalmente, do que realmente importa: o Aeroporto da Horta — permanentemente com limitações e que continua a ostentar o título de “internacional” apesar de mal conseguir ver aviões levantar voo com todos os passageiros e respetiva bagagem — e do Porto da Horta, esse gigante adormecido que já teve mais importância do que hoje, mas que parece condenado ao esquecimento, enquanto a chamada economia azul vai ficando por rascunhos e intenções. Durante semanas, os grandes temas fizeram manchetes e renderam minutos na televisão. Durante semanas, os temas foram debatidos, prometidos e re-prometidos. Fizeram-se vídeos, visitaram-se locais, anunciaram-se milhões para estes dois investimentos estruturantes para o futuro da ilha e a sua ligação ao mundo . Tudo era estrutural, tudo era urgente. As eleições estavam à porta — e os Faialenses, fartos de esperar por vez, responderam com o voto, penalizando q...

Dívida em alta, SATA à deriva e o Aeroporto esquecido

Num arquipélago onde a distância e o mar moldam a vida quotidiana, os transportes e a gestão pública deviam ser tratados com rigor e visão estratégica. Mas os factos, os números e as histórias reais contam outra história – e é uma história de descontrolo e desorganização. De acordo com os dados oficiais da Conta da Região, a dívida a fornecedores atingiu, em 2024, o valorimpressionante de 436,2 milhões de euros , face aos 154,5 milhões registados em 2020. Por sua vez a dívida pública da Região apresenta novo recorde de 3400milhões de euros em 2025 , um aumento de 1000 milhões apenas nos últimos 4 anos do Governo de Coligação. Esta trajetória desgovernada ocorre ao mesmo tempo que a execução dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) se mantém vergonhosamente baixa, segundo dados publicados recentemente. Mas talvez nada simbolize melhor esta inépcia do que a forma como se geriu – e continua a gerir – a SATA, empresa pública essencial ao arquipélago. Após anos a insinuar que...

A fábula da Corrida ao Tacho na República

Neste pais à beira-mar plantado, onde o bacalhau é rei e os programas de comentário político são superiores as reportagens sobre os problemas que afetam a população, perspetivava-se mais uma eleição. O povo, calejado por sucessivas desilusões, preparava-se para voltar a escolher entre o caos conhecido e a esperança temperada com vinagre. Os principais candidatos reuniram-se num estúdio de TV com um cenário tão neutro quanto possível. Pedro Nuno Santos, o antigo maquinista rebelde da esquerda, entrou com um brilho nos olhos de quem já caiu do cavalo e ainda assim voltou para pegar nas rédeas. Trazia ideias, entusiasmo e o cabelo ligeiramente despenteado, típico de quem passou a noite a desenhar soluções para os problemas do país que todos prometem resolver... mas só depois das legislativas. Olhou para a câmara e disse: “Eu não venho aqui prometer o céu, mas quero acabar com o inferno atual de muitas pessoas.” Luís Montenegro, o candidato que parecia refém de um guião, seguro com...

Um Sussurro de Luz num Mundo que Grita Trevas

Num tempo em que o mundo acelera perigosamente para os braços de um conservadorismo duro, isolacionista e nacionalista de extrema direita, a perda do Papa Francisco é mais do que a partida de um líder espiritual — é o silêncio que se abate sobre uma das vozes mais lúcidas, humanas e progressistas da nossa era. Jorge Mario Bergoglio foi, no seio de uma Igreja tantas vezes distante da realidade dos que mais sofrem, uma revolução serena. Um Papa com falhas, como todos os outros, mas que teve a coragem rara de falar das feridas do mundo com bondade e verdade. Ergueu-se contra a cultura da indiferença, defendeu os pobres como prioridade evangélica, acolheu os migrantes como irmãos, ouviu os gritos das minorias e desafiou os poderosos — dentro e fora da Igreja — com a firmeza dos humildes. Denunciou a indiferença global, falou do ambiente e das alterações climáticas, questionou os excessos do capitalismo, pediu perdão pelos crimes da Igreja, desafiou a própria Cúria e estendeu a mão aos úl...

Açores: A pobreza que grita e o silêncio que governa

Os Açores enfrentam uma realidade socioeconómica alarmante. Segundo dados recentes do INE, a região apresenta uma taxa de risco de pobreza de 24,2%, significativamente acima da média nacional de 16,6%. Além disso, o Coeficiente de Gini, indicador de desigualdade de rendimentos, situa-se nos 33,8% nos Açores, o mais elevado do país. A taxa de privação material severa atinge 8,2% da população açoriana, o dobro da média nacional. Este número significa que milhares de açorianos não conseguem assegurar necessidades básicas como alimentação adequada, aquecimento, acesso à saúde ou pagamento de despesas correntes. É um retrato social vergonhoso para uma região integrada numa democracia europeia do século XXI. Os Açores são, aliás, a única região do país que não conseguiu recuperar os níveis de 2020 , demonstrando que a retoma nacional não chegou ao arquipélago. Mas o retrato torna-se ainda mais gritante quando olhamos para os dados publicados na base estatística europeia do Eurostat. De acord...

A Viragem da América e a Solidão da Europa

Nos últimos tempos, o mundo tem assistido a uma mudança radical na política externa dos Estados Unidos, uma transformação que culminou numa reviravolta impensável: a superpotência que outrora liderou o Ocidente na luta contra regimes autoritários e ditaduras agora alinha-se, sem pudor, com os mesmos regimes que antes condenava. Um dos episódios mais recente deste realinhamento geopolítico aconteceu com a votação de uma resolução apresentada pela Ucrânia e pela União Europeia, exigindo o fim da agressão russa e reafirmando o princípio da integridade territorial. A Hungria, fiel ao seu alinhamento pró-Kremlin, foi a única nação europeia a votar contra. Já não surpreende: Viktor Orbán há muito se comporta como um agente do Kremlin dentro da União Europeia, defendendo uma visão de governação iliberal que ecoa a de Moscovo. O que realmente deveria preocupar-nos, no entanto, é quem se juntou a esta posição. Para além dos suspeitos do costume — Rússia, Bielorrússia, Coreia do Norte, Sudão...

Mais Vale Rir Do Que Chorar (Défice, Dívida e Impostos)

Os Açores estão a dar cartas na escalada do défice e da dívida. Se antes já tínhamos uma dívida respeitável, agora, sob a brilhante batuta do PSD/CDS/PPM decidiu-se levar o seu crescimento para um nível olímpico. Os analistas, sempre alarmistas, insistem que a dívida bruta regional já cresceu 1.000 milhões com a atual governação. Mas sejamos justos: quem é que precisa de contenção orçamental quando se pode gastar e depois pedir ao contribuinte para tapar o buraco? Já o défice, em 2024 atingiu uns brilhantes 122 milhões de euros, o que comparando com os modestos 88 milhões de 2023, fica claro que a Região está empenhada em subir a fasquia. Curiosamente, este aumento do défice acontece num ano em que as receitas da Região cresceram uns invejáveis 8,8%, chegando aos 1,45 mil milhões de euros. Mas de onde veio tanto dinheiro? Simples: grande parte é proveniente dos impostos. E o prémio de crescimento vai para... os impostos indiretos, de onde se destaca com o maior crescimento percen...

Até quando a resignação?

O crescimento de passageiros desembarcados nos Açores tem sido evidente, mas é preciso analisar os números para além da espuma mediática dos recordes. Analisando os dados do relatório dos passageiros desembarcados nos Açores, é possível verificar que a ilha do Faial, com exceção do Corvo (única ilha com resultados negativos), é a que obtém o menor crescimento em 2024. Na verdade, o Faial teve um crescimento percentual insignificante, com +0,23%, confirmando sua estagnação. Este relatório adensa uma realidade que há muito ando a chamar a atenção e que demonstra a perda de importância da nossa ilha em termos políticos, económicos e sociais. Senão vejamos, enquanto a vizinha ilha do Pico, com uma realidade semelhante à nossa, experimenta um crescimento notável no número de passageiros desembarcados, o Faial apresenta um crescimento anémico, revelando uma estagnação alarmante. A ilha do Pico registou um crescimento significativo, passando de 102781 passageiros desembarcados em 2023 par...

Os Açores na encruzilhada da dívida: entre promessas e realidade

  Se os Açores fossem uma nação independente, a entrada da Troika seria uma evidência. O gráfico da dívida pública não deixa margem para dúvidas: a administração regional segue com um aumento vertiginoso nos últimos anos. O gráfico foi retirado do Banco de Portugal, o traço na vertical foi colocado por mim e separa o período do atual governo (à direita) do anterior.   O Banco de Portugal documenta um cenário preocupante, onde a trajetória da dívida parece descolada da realidade do discurso de alguns protagonistas. A ajuda financeira recente de 75 milhões de euros do Governo da República, destinada exclusivamente ao pagamento de dívida, foi tratada com um silêncio estratégico entre governos da mesma cor política. Essa injeção de liquidez, somada a 150 milhões em autorizações de endividamento e 110 milhões de empréstimos diretos, serve apenas para tapar buracos imediatos e demonstra a assistência financeira que esta a decorrer. O endividamento regional ultrapassou a marca de 1...

A Passagem de Ano: Esperança em Forma de Ilha

À medida que o calendário se aproxima de 31 de dezembro, algo peculiar desperta em nós: um misto de nostalgia, celebração e expectativa pelo futuro. A passagem de ano é mais do que um marco temporal, é um evento simbólico que transcende culturas e épocas. O ser humano sempre precisou de marcos para organizar o caos do tempo. Os nossos ancestrais celebravam os solstícios e as colheitas, enquanto hoje celebramos o fim de um ciclo anual. A passagem de ano funciona como um pequeno intervalo no jogo da vida, um breve instante onde o passado se encontra com o futuro. Não é o virar de uma página qualquer, é o reinício de um capítulo que acreditamos poder escrever melhor. Nos Açores, onde o isolamento geográfico se combina com uma forte conexão ao oceano, este momento carrega um simbolismo ainda mais profundo. As festas e os brindes entre família e amigos falam de renovação, mas também de resiliência. A economia pode apresentar desafios, as questões sociais podem exigir atenção, as maleitas po...

Promessas por concretizar e desafios por superar

O Plano e Orçamento para 2025 para a Região Autónoma dos Açores expõe questões que vão muito além das disputas partidárias, tocando em temas cruciais para a vida da população faialense. Apesar de medidas realizáveis, como aliás acontece todos os anos, é impossível ignorar a sensação de promessas não cumpridas e a frustração com a aparente estagnação de obras e projetos essenciais para a ilha do Faial. A execução de apenas 35,47% do plano anterior não é apenas um número; é um reflexo de incapacidade de gestão e execução que impactam diretamente a qualidade de vida dos cidadãos. O Faial, como outras ilhas do arquipélago, enfrenta desafios únicos que exigem mais do que boas intenções ou promessas recicladas. Estradas por concluir, património por reabilitar e estruturas portuárias e aeroportuárias paradas no tempo são exemplos tangíveis de uma realidade que não pode continuar a ser ignorada. Cada uma dessas obras representa uma oportunidade perdida de desenvolvimento, de dinamização económ...

Os Pequenos “Ditadores” do Atlântico

Nos Açores, terra de beleza avassaladora e genuinidade, surge um paradoxo político desconcertante: a democracia insular, por vezes, parece governada por alguns egos com mais altitude que os vulcões locais. Pequenos “ditadores”, de discurso inflamado, não apenas evitam a crítica como a atacam com vigor digno de melodrama. Criticar o governo tornou-se um ato de coragem. Quem se atreve a apontar falhas – sejam cidadãos comuns ou responsáveis de instituições locais – rapidamente encontra o seu nome arrastado pela lama da política de difamação e desqualificação. A ironia? Esses pequenos Napoleões açorianos, supostamente defensores da transparência e da democracia, demonstram uma fragilidade alarmante quando confrontados com uma simples discordância. Que fique claro que não se está a confundir o todo com as partes, mas os exemplos multiplicam-se em alguns protagonistas. A fórmula é sempre a mesma: um cidadão reclama de um serviço público que não funciona, um líder de uma instituição loca...

O Mito da Meritocracia

A meritocracia é um conceito que se baseia na ideia de que o mérito e as capacidades são os fatores determinantes do sucesso. Acontece que um dos maiores fatores para ser bem-sucedido na vida é ser filho de pessoas bem-sucedidas, mesmo com fraco aproveitamento escolar, como comprovam vários estudos. Ser filho de pessoas bem-sucedidas influencia o nosso futuro sucesso de duas formas. Os genes que herdamos e o ambiente familiar e socioeconómico em que somos criados. Dado que ninguém escolhe o seu próprio genoma e ninguém escolhe a família onde nasce – se rica, se bem conectada socialmente, se bem estruturada – também não me parece que seja possível atribuir o nosso mérito a essas ocorrências. A coisa mais perversa associada a esta ideia da meritocracia levou a uma corrente liberal anti Estado. No fundo, a lógica é a seguinte: “ se eu fui bem-sucedido à conta do meu esforço e tu não, porque é que eu tenho que pagar mais impostos para te sustentar?” A ideia do “Self Made Man” sugere ...

O Preconceito Contra os Funcionários Públicos

Em Portugal, existe um paradoxo profundo nas expectativas da sociedade relativamente aos funcionários públicos. Às segundas, quartas e sextas, exige-se mais presença policial nas ruas, mais profissionais de saúde nos hospitais, mais professores e assistentes operacionais nas escolas e em diversos outros sectores da administração pública. Porém, às terças, quintas e sábados, a mesma voz pública reclama que há funcionários públicos a mais. Esta duplicidade revela um preconceito enraizado e uma incompreensão sobre o papel essencial do serviço público no funcionamento de uma nação. Este preconceito não é novo, mas foi fortemente reforçado durante o governo de Passos Coelho e Paulo Portas. Naquela altura, popularizou-se a ideia de que os funcionários públicos eram sinónimo de ineficiência, e que o setor privado era o único capaz de oferecer serviços de qualidade. Esta visão não só ignora a complexidade do trabalho no setor público, como também esconde os interesses políticos por detrás de...