O que se passa hoje em Portugal não é um fenómeno isolado. É parte de uma tendência visível em várias democracias ocidentais, onde a extrema direita cresce alimentada pelo medo, pela desinformação, pelo culto da personalidade e pela normalização do discurso de ódio. O caso de André Ventura deve ser lido neste contexto, sem ingenuidade ou tentativas de relativizar.
Quando 85,7% da desinformação verificada na
última campanha tem origem num único candidato, percebemos que já não estamos
perante excessos pontuais. Estamos perante uma estratégia política deliberada
em que a desinformação se torna instrumento central de mobilização.
Se associarmos isso a políticas de imigração com
falhas, a degradação dos serviços públicos ou o distanciamento progressivo
entre elites políticas e cidadãos temos o terreno fértil para este discurso
ganhar tração.
A extrema direita prospera quando transforma
problemas complexos em respostas e culpados simples: sejam eles imigrantes,
minorias, jornalistas ou instituições democráticas. A repetição constante deste
discurso ajuda a tornar aceitável aquilo que antes seria inaceitável. O
episódio do ex-deputado do Chega que ocultou o rosto num almoço com figuras
ligadas a grupos neonazis é revelador. Há vergonha em ser visto, mas não há
pudor em participar. Há receio da exposição pública, mas não há rejeição clara do
extremismo. O silêncio cúmplice ou a tentativa de minimizar o problema são
sinais da normalização em curso.
Quando algumas “maçãs podres” das forças de
segurança, que não representam a maioria dos profissionais, se sentem à vontade
para partilhar em grupos de WhatsApp relatos de humilhação, agressão e até
sodomização contra imigrantes e pessoas sem-abrigo, percebemos a dimensão desta
normalização. Ela ganha outra dimensão quando capítulos inteiros do Relatório
de Segurança Interna que alertavam para grupos extremistas e influencers de extrema-direita a cativar
jovens são suprimidos. Não é apenas omissão, é mais um passo na banalização do
extremismo.
Basta olhar para os Estados Unidos para ver onde
isto pode levar. O trumpismo demonstrou como o ataque sistemático à imprensa, à
ciência e às instituições abre espaço ao autoritarismo. A normalização e o
apoio velado a grupos radicais, as políticas agressivas de imigração, a
retórica racista e o nacionalismo xenófobo tiveram consequências concretas que
assistimos todos os dias. Nada disto surgiu de um dia para o outro. Foi sendo
preparado, discurso a discurso, eleição a eleição.
Enquanto cidadão português, nascido nos EUA, preocupa-me
ver sinais semelhantes a ganhar terreno. A ideia de que a democracia é fraca,
que os direitos humanos são um entrave e que a diversidade é uma grave ameaça
vai sendo repetida até soar normal. O “atirar a matar” como solução é apenas
mais um exemplo.
O maior risco não é uma tomada súbita do poder,
mas a habituação. A normalização, muitas vezes alimentada por partidos
políticos por mero tacticismo político, faz com que deixemos de nos chocar com
a mentira, o racismo ou a proximidade a grupos extremistas. Defender a
democracia não é apenas votar. É recusar a desinformação, exigir
responsabilidade e não aceitar que o medo seja transformado em projeto político.
A extrema-direita não precisa de tomar o poder de forma abrupta. Basta que nos
habituemos ao ódio, à mentira e ao medo. Defender a democracia é decidir, todos
os dias, que não vamos aceitar isso.
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