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A Tempestade Anunciada que o Governo Insiste em Ignorar

 A sucessão de sinais de alarme na economia açoriana tornou-se demasiado evidente para continuar a ser ignorada. Já antes tinha aqui assinalado o aumento abrupto da dívida regional, que praticamente duplicou desde que a atual coligação assumiu funções. No entanto, esse cenário, que deveria preocupar qualquer responsável político ou cidadão informado, parece ser tratado com uma indiferença desconcertante. A política financeira seguida tem sido um desfile de medidas de curto prazo, feitas à pressa e com o objetivo de garantir simpatias eleitorais, sacrificando a sustentabilidade económica e hipotecando o futuro das próximas gerações.

A dependência crescente da Região face ao exterior é hoje inegável. Nunca os Açores dependeram tanto dos fundos da República, nem se viu o Governo Regional tão de mão estendida, numa postura que mina a autonomia conquistada e reduz a nossa capacidade negocial a praticamente zero. Não é a oposição que o diz, são os próprios documentos oficiais: em 2026 estaremos com quase o dobro da dívida registada em 2020. Não existe narrativa política que consiga disfarçar esta realidade.

E como se a degradação das contas públicas não bastasse, começam agora a surgir indicadores preocupantes. O Turismo, aquele que durante anos foi apresentado como a “galinha dos ovos de ouro”, está a perder fôlego. As quebras consecutivas no número de passageiros desembarcados em setembro e outubro mostram uma retração clara, com descidas nos voos internacionais e nacionais, escapando a este cenário apenas os voos interilhas, embora isso pouco alivie o impacto geral.

Também as dormidas registadas em setembro, tradicionalmente um mês forte, caíram face ao ano anterior. O turista nacional, que deveria ser o pilar mais estável do setor, apresenta já um acumulado negativo no ano de 2025. Até os levantamentos em caixas automáticas, um indicador simples, mas revelador, recuaram durante todo o ano.

O próprio indicador de atividade económica, que deveria ganhar força nos meses de maior procura, tem vindo a desacelerar desde maio. Tudo isto compõe uma fotografia que não pode ser ignorada: num cenário de dívida galopante a economia está a perder tração, e o Governo prefere fingir que a maré continua favorável.

A isto soma-se o caos na SATA e a decisão da Ryanair de abandonar os Açores em março de 2026. Uma notícia que a confirmar-se seria um tsnumai sobre o sector responsável por 20% do PIB regional e onde alguns estudos apontam para 22% do emprego regional. Mesmo sabendo que o seu CEO tem por hábito ameaçar recuos estratégicos, não deixa de ser significativo que a companhia pareça ter percebido o estado financeiro delicado da região. Ao exigir compensações, não só expõe a dependência aos humores desta empresa privada, como a fragilidade de um modelo assente em subsídios mascarados de “marketing turístico”.

Mais grave ainda é perceber que, perante estes sinais de retração, continua a faltar um plano estratégico que diversifique a economia regional.

As nuvens cinzentas no horizonte não são apenas mau tempo económico; são o prenúncio de uma tempestade anunciada. Persistir nesta rota é conduzir os Açores para uma pré-bancarrota evitável. Ainda vamos a tempo de mudar, mas só se houver coragem política para enfrentar a realidade em vez de a maquilhar.

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