Confesso que parti para este novo modelo com algum otimismo. Estou perfeitamente à vontade com ferramentas digitais, utilizo serviços online diariamente e raramente preciso de recorrer a balcões físicos. Mas bastaram poucos dias para perceber que, na prática, o que foi apresentado como simplificação não passa de um processo mais complexo, mais lento e francamente desajustado da realidade.
Acedi à plataforma no dia 18 de fevereiro, mal regressei
de viagem. O sistema começou por
rejeitar a elegibilidade, situação que resolvi rapidamente com IBAN e
comprovativo familiar no portal das Finanças. Depois veio o verdadeiro teste.
Formulários extensos, pouco claros, sem orientação útil, onde em vários
momentos tive de “adivinhar” o que era pedido. Submeti, aguardei dias por
resposta e recebi um pedido de alteração vago. Corrigi. Voltei a submeter.
Esperei novamente por vários dias. Nova rejeição, desta vez detalhada e por um
motivo que me obrigou a contactar a companhia aérea para alterar as faturas dos
meus filhos e aguardar mais uma semana para enviarem os documentos corrigidos.
Repeti o processo. Voltei a esperar. Nova correção pedida, desta vez sobre
informação que já constava nos anexos oficiais enviados, mas que tinha que ser
eu a corrigir na plataforma. No total, já se passaram 35 dias de interações, sucessivas correções e longos períodos de
espera e ainda não tive uma confirmação ou recebi o respetivo valor, isto num
processo que deveria ser simples e rápido.
Tinha um caso mais complexo e já percebi como
tudo funciona, tendo inclusivo já resolvido o caso para familiares meus. E aqui
está o ponto central: eu consigo lidar com isto. Tenho literacia digital e
tenho margem financeira para adiantar centenas de euros durante semanas. Mas e
quem não tem? Este modelo obriga o cidadão a financiar o Estado, sem prazo
claro de reembolso, sem previsibilidade e com um grau de exigência técnica
desproporcionado que, para muitos, obriga a procurar ajuda. Não estamos a falar
de um apoio acessório. Estamos a falar de mobilidade, de acesso a serviços, de
igualdade territorial.
Como se não bastasse, há ainda a questão do teto
máximo de comparticipação nas rotas de serviço público. Num mercado com pouca
concorrência e preços voláteis, limitar o reembolso a um valor fixo de 600€ de
viagem ida e volta é ignorar a realidade. Quando os preços sobem, como
inevitavelmente sobem na época alta, sobretudo em rota com monopólio como é a
da Horta, o diferencial fica do lado do passageiro. O subsídio deixa de
garantir equidade e passa a ser apenas um alívio parcial.
Perante a contestação, surgem agora anúncios de
correções. Sem prazos, sem detalhes e com um tom que tenta transformar um
problema criado em mérito político. Não é. É uma admissão tardia de falha para
a qual já tinham sido avisados. Mais grave é a ausência de uma posição firme
por parte de quem, a nível regional, deveria defender de forma inequívoca os
interesses dos Açorianos.
Depois desta experiência, a conclusão é difícil
de evitar. Este sistema não foi desenhado para facilitar. Pelo contrário, deixa
a sensação de que foi pensado para limitar o acesso e, com isso, reduzir
custos. Foi construído por quem não depende dele e sem considerar quem dele
precisa. E quando assim é, o resultado não é apenas ineficiência. É injustiça.
Porque a mobilidade, para quem vive nas ilhas, não é um benefício
administrativo. É um direito. E um direito que se torna difícil de exercer
deixa, na prática, de o ser.
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